Catarinalândia


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Sábado, Março 26, 2005


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Abaixo, novo post para vocês!

Beijón

Súditos que beijaram a mão da Rainha:


I DON¿T WANNA GROW UP

De vez em quando eu ainda lembro que tenho um blog para comandar, e eis que apareço para espanar a poeira e a teia de aranha....

É verdade que a criatividade vem rareando, mas surgem coisas que, de tempos em tempos, me motivam a escrever. Falo de três gemas da cultura pop, de ontem e de hoje: Bob Esponja, TV Pirata e Armação Ilimitada.

BOB ESPONJA

Tá, eu confesso: eu virei fã do Bob Esponja, o mais recente ícone da criançada. Tudo começou há um mês e meio, quando eu realizava um exame de sangue que me obrigava a ficar duas horas de molho no laboratório. Depois de doze horas de jejum, e 300ml de glicose pura, eis que surge, após Ana Maria Braga e Pica Pau, os delírios aquáticos de Bob Esponja. Não é que o desenho é engraçadinho?

Por que gostar de Bob Esponja? Porque o estilo do desenho, o jeito meio doidão de contar as histórias e a confecção dos próprios personagens surpreende como os velhos desenhos animados. É infantil porque se reporta a uma linguagem simples, a temas que estão no universo infantil (amizade, sonhos, relações familiares, desafios) mas não apontam o dedo para a criança, dizendo o que ela deve fazer. Mexe com a criatividade ao transformar a linguagem figurada em traço, e não subestima a inteligência do espectador, tanto o pequeno quanto o adulto. Um detalhe aqui e outro ali, e o universo de Bob Esponja faz conexão com um público amplo pela simples capacidade de fazer rir. E só. Se você, ignóbil súdito, está torcendo o nariz nesse exato momento, pensando que Catarina virou a Rainha Louca, experimente ver um episódio do Calça Quadrada e depois me conta se você também não riu...

TV PIRATA / ARMAÇÃO ILIMITADA

Graças ao aniversário de 40 anos da Globo que os assinantes da globosat podem se esbaldar com a reprise de dois dos programas mais legais da face da Terra: TV Pirata e Armação Ilimitada!! Tá certo que o horário é bem, mais bem infeliz ¿ 12h e 17h não são horários apelativos para quem era criança na época e hoje é marmanjo, trabalha, estuda, e provavelmente não está em casa para assistir. Mããs, melhor isso do que nada. Ainda mais com o fato de a Globo lançar somente oito horas de TV Pirata em DVD. Oito horas para um programa que foi semanal durante dois anos, e mensal outros dois, não é muito.

Churumelas à parte, ao assistir aos dois programas, eu vejo o quanto é bom ser adulta! É que agora entendo melhor as piadas, as tiradas e as sátiras que rolavam nos dois programas. Isso é prova do quanto a recepção é diferenciada em relação à faixa etária, isto é, a gente só grava aquilo que entende. E eu não tenho a menor saudade do tempo em que eu não entendia nada...

É impressionante ver que os criadores tanto do Armação quanto do Pirata foram quase os mesmos. Guel Arraes esteve à frente da direção dos dois em boa parte do tempo, e as criações do teatro de besteirol, da companhia Asdrúbal Trouxe o Trombone (do qual fizeram parte Patrícia Travassos, Evandro Mesquista, Vicente Pereira, Regina Casé e Luis Fernando Guimarães) deixaram suas impressões digitais nos mínimos detalhes. A inversão e o escracho não se rendiam a bordões, mas a situações que misturavam inúmeras referências da cultura pop.

Em uma época de redemocratização (a ditadura terminou em 1984, e o Armação Ilimitada começou em 1985); de séries enlatadas; e de alta inflacionária, esse tipo de programação dialogou com a realidade social brasileira ampliando o próprio conceito de ¿social¿, tirando onda com a intelectualidade que, ao desprezava o pop (cinema de bilheteria, seriados estrangeiros, quadrinhos, rock), entronizava uma certa ¿cultura de raiz¿, congelada no tempo e no espaço.

No caso do Armação, vemos uma síntese altamente criativa e inusitada de surf e ecologia (Juba e Lula), ¿pós-modernismo¿ (Zelda Scott), música pop (Pink Floyd, Beatles, heavy metal, Barão vermelho, Kid Vinyl), quadrinhos (cortes rápidos, balõezinhos), e tudo o que estivesse à mão dos criadores. Uma mistura sem preconceito que mostrava uma forma diferente de considerar o telespectador: como público diversificado, capaz de entender piadas tanto sofisticadas quanto simples (o segredo estava na referência e no modo de fazer a piada); e como audiência antenada nas transformações sociais, econômicas e culturais que o país estava vivenciando. O humor estava para além do estereótipo.

Dentro os criadores do Armação havia Guel Arraes, filho do político Miguel Arraes, exilado na França durante a ditadura. O jovem Guel estudou cinema e foi assistente de Godard. Moço intelectualizado, tal como outros artistas do Asdrúbal, usou a reflexão crítica a seu favor, evitando qualquer pedantismo que sua posição poderia favorecer.

Os recursos visuais limitados (para nós, hoje) eram uma forma de brincar com o imaginário da garotada, não fazendo distinção entre Glauber Rocha (Jararaca, o Cabra), Chacrinha, Magnum, extraterrestres, hippies, darks, etc etc etc....Ao rever os programas, percebo que meu primeiro contato com Beatles, Pink Floyd, The B-52¿s foi através do Armação! Visual, verbal, e musical extremamente bem casados, um produto de primeira que sucumbiu à lógica da TV, em que a novidade de hoje é notícia velha de amanhã. O Bacana cresceu, Juba e Lula viraram tiozões, e o formato se esgotou. Mas foi ótimo enquanto durou.

O TV Pirata, surgido em 1988 radicaliza algumas propostas lançadas em Armação Ilimitada, ao satirizar o universo da TV e da publicidade, costumes e cotidiano. Época de Assembléia Constituinte (a versão final da Constituição foi aprovada em 05.10.1988, enquanto que o Pirata estreou em março do mesmo ano), de hiperinflação, violência, e da novela Vale Tudo.

Tirando certas piadas bem datas sobre a hiperinflação, o Pirata se mostra hoje extremamente atual, ao satirizar os problemas urbanos (Morro do Macaco Molhado), a corrupção, o jeitinho brasileiro (Super-Safo), o sistema carcerário (As presidiárias), gênero (TV Macho), a classe média que tem nojo de povo, o povo que se vira como pode, e os ricos que têm horror a tudo que é brasileiro.

Mais uma vez, o social, o político, o cultural e o econômico segundo os criadores do Tv Pirata (dentre eles, roteiristas do Armação, e os humoristas do futuro Casseta e Planeta) eram sentidos e resignificados no cotidiano, nos costumes, no modo de falar e de vestir. Rir era a melhor forma de demonstrar isso, era a melhor forma de revanche!

Infelizmente a fórmula se esgotou rápido também, em dois anos o Pirata perdera parte de seu elenco original (Marco Nanini, Nei Latorraca, Cláudia Raia), e transformara-se em mensal para preservar o encanto. Não deu certo, e também foi arquivado até ser ressuscitado hoje, para alegria dos fãs que há tempos pediam para a Globo reprisar ou lançar algo em DVD. Prova de que muitos telespectadores brasileiros têm memória e reconhecem nos herdeiros (Programa Geral, Brasil Legal, Casseta e Planeta) a matriz Pirata.

Será que hoje poderíamos ter um TV Pirata? Ou uma Armação Ilimitada? O que explica o sucesso desses programas? Mais: o que explica a Globo, uma emissora tida por conservadora, abrir sua grade para essas duas experimentações que causaram furor entre alguns humoristas da antiga (Chico Anysio resmungou muito por causa do Pirata)? Como diria Perpétua: Mistério....

Acho que o politicamente correto que invadiu os meios de comunicação matou um pouco a ferocidade do humor televisivo, cuja ousadia migrou para outros meios, como os cartuns animados da internet, o fotoblogs, o rádio e a imprensa ¿alternativa¿. Por outro lado, não devemos culpar os grandes veículos de comunicação de sufocar a criatividade dos artistas, acredito que há muita repetição por comodismo (é fácil apostar no que já deu certo) e, principalmente, por mediocridade. Tomemos por exemplo o Repórter Vesgo (Pânico na TV). No início de sua saga em fazer troça com pseudocelebridades, até que foi bem (mas não sem a ajuda do Ceará, o Sílvio Santos) , mas seu poder de fogo mostrou-se curto e fraco ao partir para a agressão gratuita travestida de sátira (vide o caso das Sandálias da Humildade).

Moral da História: Duvido que, enquanto a TV continuar a se auto-emular de forma complacente, surgirá tão cedo um TV Pirata para dar uma lufada de ar nesse moribundo humorismo. Mas sonhar não custa nada...por enquanto.



Súditos que beijaram a mão da Rainha:



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