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Domingo, Março 21, 2004
MAIS RELIGIÃO:A PAIXÃO DE CRISTO
O filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, vem causando certa celeuma na imprensa e nos meios religiosos (cristãos e judaicos) há quase dois, anos, quando o projeto de se fazer um filme totalmente falado em aramaico e latim sobre as doze últimas horas de Jesus Cristo foi divulgado.
Na verdade, diz Gibson, a idéia para o filme vinha sendo gestada há 12 anos, quando ele teve uma experiência pessoal religiosa muito intensa. E é como uma reflexão ou interpretação sobre um fato religioso que o filme deve ser visto. Não é entretenimento, mas também não é como um show de violência gratuita que deve ser encarado.
Para entendermos esse filme, precisamos entender toda uma tradição de filmes sobre Cristo, que já tem quase 100 anos! É necessário saber um pouco de história do Cristianismo e de representações iconográficas cristãs. Esqueçam a maioria das críticas feitas sobre o filme: muitos jornalistas não entendem NADA de história das religiões e analisaram o filme como mero...filme. Minha pretensão não nem levantar a bola nem massacrar o filme, mas entender como a história da Paixão de Cristo foi retratada.
Violência ¿ A simbologia do sofrimento e do sangue
Em primeiro lugar, devo dizer que o filme é, sim, violento. Que tem, sim, muito sangue e que quem é vertebrado chora muito do começo ao fim. É um filme impactante, forte, e que se utilizou dessa linguagem para passar sua mensagem.
Poderíamos nos perguntar: por que as pessoas até hoje, 2000 anos depois de Cristo, ainda sairiam de casa para assistir a uma história cujo final é mais do que conhecido? A resposta está na forma como a história é contada. E o que pensar quando essa história é a narrativa principal de uma crença religiosa? De certa forma as pessoas não somente em busca do entretenimento (que existe, mas não é determinante), mas em busca de um novo sentido para algo conhecido; a busca por um sentido de algo desconhecido; enfim, a busca por uma mensagem que vá nos tocar pessoalmente.
No caso de A Paixão, a mensagem do filme é bem clara, e é dada logo no início do filme, aberto por um versículo de Isaías 53: a de que um Messias viria sofrer pelos pecados humanos. Isaías foi um profeta judeu que, segundo interpretações do Velho e do Novo Testamento, teria previsto a vinda do Messias, daqueles que traria a salvação para o povo judeu. Mas a salvação viria acompanhada do derramamento de sangue desse Messias, que purificaria as faltas de toda a Humanidade.
O sofrimento, ou melhor, a imagem do Cristo sofredor, é a chave para se entender o filme. Gibson quer que os cristãos se lembrem que Cristo não veio à Terra para falar de paz e amor ¿ qualquer faz isso. Ele fez isso com uma missão especial: morrer em sacrifício, para sua mensagem de paz e amor fosse única e tivesse um sentido maior, que é a redenção humana.
Não é à toa que o filme começa com Cristo suando sangue, em Getsêmane, ciente de que está prestes de ser traído e entregue a líderes judaicos inimigos. O sangue, aliás, é o elemento simbólico mais forte dessa mensagem de sofrimento. A idéia de que o sangue de Cristo lava os pecados dos homens é evidente. Na cena em que Cristo foi retirado da cruz, e sua coroa de espinhos é retirada, há um close demorado na coroa de espinhos ensangüentada, intercalada com a mensagem de Cristo na Santa Ceia de que ele o que ele viveria ninguém seria capaz de viver.
Isso nos remete à toda sorte de torturas e crueldades a que Cristo foi submetido no filme. Mais do que nos perguntar se foi ou não foi verdade, se está ou não fiel à Bíblia, e se a Bíblia mesma é fiel aos fatos, podemos pensar o que significa esse tipo de violência no filme, que tipo de sentido essa representação do martírio de Jesus contém? Ela é mais forte que a própria representação de Cristo.
A primeira das várias seqüências chocantes é a da punição aplicada pelos soldados romanos a mando de Pôncio Pilatos, parte das 14 estações da cruz (que começa com a condenação de Pilatos e termina com o repouso do corpo de Cristo na tumba, após a crucificação). As 14 estações são uma manifestação da piedade (devoção) católica, que está representada em todas as igrejas católicas por meio de imagens. Mas com a intensidade que é apresentada no filme, reforça a idéia de que Cristo não era qualquer ser humano, e sim uma pessoa especial, capaz de suportar o sofrimento como servo de Deus.
Penso que a idéia de enfatizar o sofrimento partiria do seguinte pressuposto: talvez, para Gibson e seus simpatizantes, muitos cristãos estariam encarando sua fé de forma muito light, esquecendo-se de que, para a tradição cristã, Cristo sofreu para trazer a salvação.
A memória, a consciência do sofrimento de Cristo é parte de uma pedagogia de aprendizado religioso extremamente antiga. Representações iconográficas ao longo de toda a história do cristianismo, mais destacadamente após o ano 1000, na Europa, já traziam o tema do sofrimento. Que dizer do nosso barroco e da cultura religiosa brasileira, tão diversa e tão cheia de temporalidades: quantos de nós não estudamos em colégios onde podíamos ver pendurados nas classes crucifixos com Cristo ensangüentado pregado à cruz?
O catolicismo que herdamos de portugueses e espanhóis era trágico, dramático, impressionante, diferente da devoção aparentemente sem imagens dos protestantes americanos e europeus. Se a violência não está na Bíblia, ela está na cultura religiosa cristã, em vários momentos e espaços. O que um filme dessa temática faz, dentre outras coisas, é recriar símbolos, histórias e diálogos para conformar uma mensagem de sentido existencial e religioso.
Por isso que me recuso a pensar que a violência do filme (que é impressionante mesmo!) é puro sado-masoquismo, com requintes eróticos. Esse não é um elemento contemporâneo e, sim, uma referência a uma piedade muito antiga que associa o sofrimento de Cristo à sua missão na Terra. E porque esse tipo de piedade aparece? Porque ela uma expressão de uma devoção muito individual. Humanizar Cristo a tal ponto significa torná-lo próximo ao fiel, próximo às suas angústias, mas, ao mesmo tempo, implica trazer esperança ao mesmo fiel, por saber que Cristo carregou uma cruz muito mais pesada que a minha.
Anti-semitismo
As acusações de anti-semitismo, isto é, de ódio aos judeus, não são a marca exclusiva desse filme. Desde o início do século, todo filme produzido por Hollywood sobre o tema era examinado sob o crivo de religiosos, para que essa história, conhecida por sua truculência, não ofendesse esse ou aquele grupo. Intolerância (1916), de D.W. Griffith, teve minutos cortados, provavelmente por conter menções anti-semitas. Mas como podemos entender o anti-semitismo?
O preconceito e a perseguição a judeus são antigos. Com o advento do cristianismo, muitos judeus foram mal-vistos por serem acusados de matar Jesus, e por não aceitarem que ele era o Messias. Com o Holocausto, todo indício de anti-semitismo é sinal de alarme não só para a comunidade judaica, mas para toda a Humanidade. Nada mais natural que judeus fiquem de olho em cada representação da história de Cristo, um judeu, em especial quanto à representação dos líderes judeus atuantes na história.
Afirmar simplesmente que os evangelhos atribuem papel decisivo na execução de Jesus é cair numa armadilha, pois os evangelhos não são relatos idênticos entre si. Há três sinópticos (Lucas, Marcos e Mateus), com relatos parecidos (mas que, mesmo assim, não contém os mesmos detalhes, nem a mesma ordem cronológica), e um diferente, o de João, que também contém passagens semelhantes aos outros três, pero no mucho. O próprio Vaticano, após a segunda Guerra, declarou que não culpa o povo judeu inteiro pela morte de Cristo, que ele veio com uma missão e sua morte era parte do plano divino.
Resta-nos perguntar: será que os espectadores são tão ingênuos a ponto de condenar um grupo inteiro pela ação de meia dúzia? No filme, é clara a posição de certos grupos de personagens: os líderes judeus, Caifás como Sumo Sacerdote, só não o matam no Sinédrio porque não podem, precisam da autorização de Pilatos, administrador romano da província da Judéia. Sua posição é de arrogância, de pompa e de presunção. Pilatos não quer matar Cristo e sua mulher, Cláudia, o encoraja a não fazê-lo. Cláudia não é uma personagem citada na Bíblia, mas é uma criação que enfatiza a identificação feminina (autêntica?) da santidade de Jesus. Isto é, até quem não era judeu se sensibilizava com sua atuação, prova de sua missão universal.
Já os soldados romanos agem como ignorantes, que se comprazem em torturar e humilhar Jesus, agindo praticamente como cúmplices dos líderes judeus. Até o último momento da crucificação, Caifás olha com desprezo para Maria, assim como Pilatos olha com desprezo para os judeus.
Se esse filme não fosse uma produção independente, provavelmente jamais veríamos essa caracterização dos judeus. Mas como nenhum estúdio americano quis pagar para ver, Gibson bancou o filme com sua produtora independente, tal como Peter Jackson tocou seu Senhor dos Anéis por uma produtora independente. Se isso é bom ou ruim, não me cabe julgar. O uso que as pessoas fazem das imagens é variado, mas com certeza dificilmente se poderá culpar o filme por hostilizações a judeus. No filme, judeus e romanos tiveram sua parcela de culpa, representando o mal que se abate sobre o bem.
A ressurreição de Cristo serviria para mostrar que ele venceu esse mal, vencendo a morte, condição mais do que humana. Não é uma mensagem nova para quem é evangélico e católico. Mas para os leigos, basta pensar da cena em que a figura andrógena, representando o Diabo, agoniza após a morte na cruz. Ele venceu a morte e não cedeu à tentação do demônio no seu maior momento de vulnerabilidade.
Moral da História
Um filme sobre Cristo, o maior ícone da cultura cristã e da cultura ocidental em geral, nunca é uma simples produção cinematográfica. Mesmo em suas formas mais criticadas e polêmicas, a recriação cinemática da história de Jesus procura manter um vínculo entre uma tradição de representações artísticas sobre o tema, e a interpretação pessoal do diretor e/ou roteirista sobre esse tema. Há sempre pesquisas teológicas, científicas, arqueológicas que embasam essa ou aquela interpretação.
Por isso, devemos encarar esse tipo de texto audiovisual como uma arte repleta de referências simbólicas que nem sempre se fazem óbvias aos olhos de críticos mais afoitos. No caso do filme de Gibson há um propósito muito contundente de evangelizar pela imagem, de conscientizar o espectador da real mensagem de Cristo, que não se realizou somente por palavras, mas por ações e pelo seu sofrimento.
Decretado por Catarina,a Grande
3:11 PM
Súditos que beijaram a mão da Rainha:
Quinta-feira, Março 11, 2004
IRMÃOS, ESTAMOS AQUI REUNIDOS.....
Andou losing your religion? Anda sem fé ultimamente, prezado súdito? Ou ainda não encontrou uma que se ajustasse ao seu problemático perfil?
ACALMAI-VOS, IRMÃOS!!
Eis a solução:
Beliefnet! O site em que você só não encontra sua religião se não quiser (ou não souber inglês).
Há algumas coisas bacanas:
Belief-O-Matic : o teste em que você verifica qual a melhor religião para você.
Bumper Stickers: adesivos de carros com dizeres religiosos para todos os gostos.
Jokes: há piadas de lâmpada (light bulb jokes: por exemplo, quantas mães judias são necessárias para se trocar uma lâmpada?)
Mais horóscopo, sabedoria budista, hindu, angelical, judaica, islâmica, cristã, católica, e de religiões que você nem imagina que existam!
Vai ser ecumênico assim....
* * *
P.S.: E viva a diversidade!...Diversidade já!!
Decretado por Catarina,a Grande
11:54 PM
Súditos que beijaram a mão da Rainha:
Quinta-feira, Março 04, 2004
SAVE YOUR MONEY (ou Guarde seu rico dinheirinho)
Mais um fim de semana à espreita e novas estréias hollywoodianas chegam aos cinemas. Eu, Catarina, a Grande, ando meio decepcionada com muita patetada que vem dos EUA. Ao consultar as estréias dessa semana no site do UOL, meu desapontamento não foi menor.
Por isso, enquanto dou mais uma colher de chá para vocês assistirem à Escola do Rock, e enquanto espero Kill Bill Vol. 1, lá vai a sessão Não Vi e Não Gostei:
1. Ligado em você: comédia (?!?) dos irmãos Farrelly sobre dois irmãos siameses de 32 anos. O que é mais chato: humor politicamente correto (se é que isso existe) ou humor que tenta ser milimetricamente politicamente incorreto? Tá...next!
2. Na Companhia do Medo: Halle Berry descabelada num hospício. Quem paga pra passar nervoso no cinema sofre, no mínimo, de tendências sado-masoquistas.
3. O Custo da Coragem: Cate Blanchet banca a repórter investigativa num esquemão de traficantes e quetais. De Cidade Alerta estou porraqui!
4. Pânico na Floresta: Duas minas perdidas numa floresta cheia de bicho-papão. Boo-hoo!!!
5. Por um Triz: Denzel Washington é policial suspeito de assassinato. Thanks, but no thanks.
6. Resistindo às Tentações: Cuba Gooding Jr. é publicitário mentiroso (hey, isso não seria uma redundância?) que após ser despedido volta à cidade natal e coordena um coral de igreja. Parece ser interessante. But too late, Marlene: School of Rock chegou primeiro e pegou seu lugar de comédia musical mais bacana.
7. Glauber O filme: tudo bem, esse é brazuca. Documentário que ficou barrado por anos, é finalmente editado e lançado. Trata-se do enterro de Glauber Rocha. Com todo respeito, mas ainda fico com o Zé do Caixão, que entende mais de cemitério...
Tha-that's all, folks!!!
Decretado por Catarina,a Grande
10:43 PM
Súditos que beijaram a mão da Rainha:

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